Created: Sunday, 01 December 2019 22:12 | Rate this article
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Erick Kayser, review of O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), Revista Historia, 01 October, 2019.

 

Resenha do livro: MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883). São Paulo: Boitempo, 2018.

Karl Marx seguramente figura entre os autores mais debatidos e analisados nos últimos cem anos.

A vasta bibliografia que toma o pensamento de Marx por objeto poderia sugerir que falta pouco a ser dito de forma original. No entanto, a produção intelectual em torno de Marx parece escapar a este itinerário lógico e surge como uma fonte inesgotável de reflexões que, de diferentes maneiras, segue instigando e propiciando um renovado debate. É esta capacidade de constante atualização que alimenta as diversas tradições no âmbito das culturas marxistas e, mesmo, o renovado (e variado) interesse do pensamento crítico de forma geral. Se é inegável, por um lado, que a vida e obra de Marx jamais deixaram de ser objeto de pesquisa ao redor do mundo, por outro, no período aberto após o fim da União Soviética e o ocaso do chamado “socialismo real”, o legado do pensador alemão parecia encontrar-se numa encruzilhada fatal. A crise econômica de 2008 mudou sensivelmente este cenário, renovando o interesse em Marx e o afirmando como um dos autores mais debatidos no século XXI. Não apenas suas análises e elaborações teóricas ganharam um novo impulso junto ao grande público, mas também sua trajetória de vida desperta curiosidade, como atesta o sucesso do filme O jovem Karl Marx, dirigido por Raoul Peck e lançado em 2017. Neste contexto, o livro O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), escrito por Marcello Musto e publicado em 2018 pela editora Boitempo, surge como uma importante contribuição na busca por preencher lacunas e por aprimorar a nossa compreensão do legado de Marx. Por se tratar de uma biografia intelectual, a obra se coloca o duplo desafio de explorar tanto os aspectos da vida privada de Marx quanto suas reflexões teóricas. O resultado do trabalho de Musto foi, em larga medida, exitoso ao enfrentar estes desafios. Amparando-se em uma vasta documentação, composta por manuscritos que vieram a público apenas recentemente e cuja maior parte ainda não tem tradução do alemão nem foi publicada em livro, a obra de Musto configura um importante acréscimo editorial no Brasil. Através de sua pesquisa cotejando correspondências de Marx com seu amigo e parceiro intelectual Friedrich Engels, bem como de familiares e companheiros de luta política, é composta uma rica imagem sobre os derradeiros anos de vida do Mouro, apelido que foi dado ao pensador alemão ainda em vida por amigos e familiares. Esta reconstituição nos permite vislumbrar quem foi Marx com maior precisão e complexidade, desfazendo mitos há muito difundidos. Um destes equívocos era afirmar que Marx, em seus derradeiros anos de vida, deixou de produzir intelectualmente. Estando imerso em dramas familiares, como a doença que ceifaria a vida de sua esposa, Jenny von Westphalen, em dezembro de 1881, ou ainda as debilidades físicas que assolavam o Mouro, especialmente seus graves problemas respiratórios, que
supostamente o teriam feito abandonar a atividade teórica. Porém, esta percepção cai por terra ao observarmos os manuscritos escritos no seu último período. Longe de ser alguém cuja curiosidade intelectual estivesse saciada, vemos Marx ampliando suas áreas de estudos para, por exemplo, a Antropologia, dedicando atenção às sociedades pré-capitalistas e, principalmente, à comuna agrícola russa, motivo que o levou a aprender russo. Continuava um leitor atento dos principais acontecimentos da política internacional, seja através da grande imprensa ou através da imprensa operária e das correspondências que trocava com intelectuais e militantes políticos de diferentes países. Também o acompanha um contínuo estudo da matemática que, desde fins da década de 1870, recebera uma dedicação mais sistemática que daria origem a algumas centenas de páginas que, posteriormente, viriam a ser conhecidas como Manuscritos matemáticos.1 O livro de Musto também nos traz Marx preocupado com a repercussão de O Capital, que ele considerava a sua magnum opus e cujo primeiro volume ganhara uma nova impressão na Alemanha, ao mesmo tempo que era publicado em fascículos na França e já havia sido traduzido para o russo (MUSTO, 2018, p. 85). O projeto de Marx era publicar O Capital em três volumes, no entanto, o caráter exaustivo de sua pesquisa e certa dose de perfeccionismo na produção textual mudaram os planos iniciais. Sobre este aspecto, Musto aponta que “Marx jamais publicou ‘nada que não tivesse reelaborado várias vezes, até encontrar a forma adequada’, e afirmou que ‘preferia queimar seus manuscritos a publicá-los incompletos’” (MUSTO, 2018, p. 23). Além disto, as inúmeras interrupções por motivos pessoais protelaram a conclusão de O Capital, motivo de inúmeras aflições para Marx, como vemos em suas cartas para Engels. Desafortunadamente, ele não concluiria em vida sua principal obra, cabendo a seu fiel amigo Engels o trabalho de compilar e publicar os dois volumes, lançados em 1885 e 1894, respectivamente. Ao contrário do que poderiam supor alguns, o estudo do último Marx revela, como aponta Musto (2018, p. 11), “uma figura completamente diferente da esfinge granítica de Marx colocada no centro das praças pelos regimes do Leste europeu, que indicava o futuro como certeza dogmática”. No período final de sua vida, o pensador alemão manteve a inquietação e a ousadia intelectual. Como exemplo de seu perfil e de sua postura intelectual, cujo rigor não se confunde com dogmatismo, há o famoso caso, com ares de anedota, de que Marx, quando confrontado pelos admiradores que se afirmavam “marxistas” após lerem sua obra – mas que efetivamente não conheciam suas ideias –, teria respondido, com reprovação, que “tudo que
sei é que não sou marxista”. A frase de Marx ficaria eternizada em uma carta de Engels de 1882, em que narra o caso para Eduard Bernstein, sendo depois
reproduzida, com significativas alterações, por diversos autores e em contextos distintos (MUSTO, 2018, p. 129). Na maturidade, Marx lamentava “o que é terrível é estar ‘velho’ o bastante para poder apenas prever, em vez de ver” (MUSTO, 2018, p. 29). Num despretensioso exercício de imaginação, talvez possamos pensar que, caso Marx tivesse vivido tempo suficiente para presenciar a forma majoritária como suas ideias foram interpretadas no século XX, possivelmente voltaria a afirmar que não era marxista. De fato, a leitura hegemônica da sua obra foi apresentada quase como uma ciência exata, com altas doses de economicismo e positivismo, segundo aquilo que, grosso modo, se denomina “marxismo científico” e com o conceito de revolução fortemente arraigado em determinismos históricos. Porém, o exame pormenorizado dos escritos de Marx, principalmente do período final de sua vida, afasta-os deste tipo de leitura. Como aponta Löwy (2018) na orelha do livro de Musto, esses textos revelam “um Marx extraordinariamente ‘heterodoxo’, isto é, pouco conforme com o marxismo pseudo-ortodoxo que tanto estrago fez no curso do século XX”. O estudo das obras do “último Marx” sugere variadas possibilidades de renovação dos estudos marxianos e, mesmo, marxistas, com maior riqueza metodológica, de objetos, campos de estudos e, em decorrência, com novas possibilidades políticas. O exame do velho Marx também nos permite revisitar uma antiga mas ainda viva polêmica: a relação de Marx com o eurocentrismo. Trata-se de um debate inaugurado em parte ou de forma mais relevante por Edward Said em seu livro Orientalismo, de 1978, no qual, em um trecho muito comentado, Said debate alguns artigos jornalísticos de Marx dedicados à Índia. Escritos na década de 1850, nestes artigos Marx expõe uma mal disfarçada
perspectiva eurocêntrica com relação ao “atraso” da Índia e aos efeitos “benéficos” da presença colonial do Império Britânico para o desenvolvimento indiano. Said afirmará que estes trechos manifestam o orientalismo contido no pensamento de Marx e, em decorrência, os limites inerentes à sua teoria crítica (SAID, 1996, p. 161-163).2 Pode-se argumentar, com boa dose de razão, que estas passagens de Marx sobre a Índia não constituem parte de sua obra teórica, ocupando um lugar menor no conjunto de suas reflexões. No entanto, não é muito difícil encontrar outras passagens em Marx que atestam uma concepção eurocêntrica do mundo, para além de possíveis vícios de linguagem oitocentistas. Como em A Ideologia Alemã, de 1846, escrito junto com Engels, no qual se lê que, para poder existir o socialismo, as sociedades deveriam passar por um capitalismo plenamente desenvolvido (MARX; ENGELS, 2014, p. 39), inviabilizando conceitualmente a possibilidade do socialismo para além das fronteiras do Ocidente; ou no Manifesto Comunista, de 1848, quando, ao apontar para a ascensão do mercado mundial capitalista, Marx e Engels (2012, p. 22) afirmam que este “arrasta para a civilização todas as nações, incluindo as mais bárbaras”. Este é um tema cujo conteúdo crítico exige um aprofundamento que transcende os objetivos e possibilidades desta resenha, ainda assim, tentaremos apontar pistas que auxiliem a esboçar um melhor entendimento sobre a questão. A obra de Marx, em seu conjunto, não nos permite apontar para um pensador eurocêntrico stricto sensu, havendo pontos substanciais de inflexão que apontam, mesmo em seus escritos juvenis, para um processo de superação deste paradigma.3 O principal vetor de distorções eurocêntricas identificáveis nas reflexões de Marx deriva da Filosofia da História de herança hegeliana, com sua noção de uma História Universal – tendo a Europa por paradigma e sinônimo de Universal – e sua distinção arbitrária entre “povos com história” e “povos sem história”. Nesta questão específica, Marcello Musto (2018, p. 73-74) aponta que os escritos de Marx sobre a Índia, criticados por Said, efetivamente expõem “uma reflexão parcial e ingênua sobre o colonialismo”, reconhecendo a mudança de postura do Mouro sobre o tema no fim de sua vida. No entanto, Musto peca por não explorar esta mudança filosófica, pelo contrário, ele a minimiza, destacando possíveis elementos de continuidade (MUSTO, 2018, p. 76-77). Ainda que falar em “ruptura filosófica” entre o jovem e o velho Marx seja exagerado (e até mesmo indevido), esta mudança não pode ser menosprezada. O paradigma hegeliano da história foi paulatinamente superado por Marx a partir da década de 1860, quando se defronta com a questão da Irlanda – onde percebe que a luta de emancipação nacional irlandesa poderia ser condicionante para uma revolução inglesa –, da Polônia e da Rússia.4 Nos anos seguintes, Marx aprofundaria seus estudos sobre a Rússia, em particular sobre o campesinato russo, bem como sobre os povos asiáticos, consolidando uma perspectiva da História que rompe com aspectos unilineares e evolucionistas do materialismo histórico. Com implicações metodológicas e políticas significativas, a partir desta mudança filosófica, Marx aprofunda uma percepção dialética e policêntrica que admite formas variadas de transformação social e que abre a possibilidade teórica das revoluções socialistas irromperem na periferia do sistema capitalista, o que viria a se comprovar empiricamente décadas depois. O livro de Musto demonstra que a inquietação intelectual de Marx ainda estava em curso em seus últimos anos de vida. Exemplar, neste sentido, é o capítulo destinado à controvérsia sobre o desenvolvimento do capitalismo na Rússia, no qual o exame das correspondências com socialistas russos e, em particular, com Vera Zasulitch expõe importantes conclusões a que Marx havia chegado. As principais seriam que a obstchina (comunidade rural
russa) não deveria necessariamente ser dissolvida e incorporada ao capitalismo, podendo a transformação socialista ocorrer diretamente (MUSTO, 2018,
p. 74-77). Esta conclusão é importante pois, ao contrário de certas leituras apressadas ou distorcidas de Marx, ela reafirma que seu instrumental crítico não assume um caráter supra-histórico e alheio às especificidades de ambientes históricos distintos. Como Marx explicita ao ser indagado pelos russos sobre a necessidade de terem de passar pelas mesmas etapas do desenvolvimento europeu para alcançarem uma revolução comunista, respondendo que “só levo em conta esse raciocínio na medida em que ele se baseia nas experiências europeias” (MUSTO, 2018, p. 72). Além do debate acerca do papel do campesinato russo para a transição ao socialismo, outra questão relevante relacionada aos povos não europeus trazida pelo livro de Musto são os estudos antropológicos e etnográficos empreendido por Marx no fim de sua vida. O Mouro dedicaria especial atenção ao livro A sociedade antiga do antropólogo estadunidense Lewis H.
Morgan, legando um conjunto de notas que posteriormente seria compilado nos Cadernos etnológicos. Musto (2018, p. 31) aponta que, ao contrário do título
dado pelo editor Lawrence Krader, o conteúdo desses manuscritos pouco versa sobre etnologia, concentrando-se preferencialmente na Antropologia. Entre os objetos investigados, destaca-se a análise da propriedade comunal nas sociedades pré-capitalistas e a preocupação de Marx em compreender as transformações nas relações de gênero e no nascimento do patriarcado, historicamente mais recente do que até então se supunha. As conclusões contidas nos Cadernos etnológicos seriam utilizadas, em parte, por Engels em seu livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado, lançado em 1884 e no qual completaria a análise de Marx (MUSTO, 2018, p. 34-35). No quarto capítulo, Musto nos traz um quadro geral sobre um dos episódios menos conhecidos e estudados da vida de Marx: o período de dois meses em que viveu na Argélia. Único momento transcorrido longe da Europa, Marx buscaria em solo africano um clima mais propício para superar sua grave enfermidade respiratória. Deste período legaria algumas reflexões sobre o mundo árabe e a presença da ocupação francesa neste território. Uma observação final sobre O velho Marx diz respeito ao desfecho do livro. Num texto vívido e com uma carga de emoção dosada de forma elegante, é difícil o leitor ficar indiferente. O impacto assenta-se na descrição da sequência de infortúnios vividos por Marx: as dores pelo falecimento da esposa e pela inesperada morte de sua filha mais velha; seguido pelo agravamento de sua doença pulmonar e, como consequência desta, a peregrinação
em busca de climas amenos na França, Mônaco e Argélia e, por fim, seu retorno a Londres, onde falece em 14 de março de 1883. Nestas páginas, o personagem mitificado, cujas ideias inspiraram tantas pessoas ao redor do mundo, cede lugar a uma figura de maior complexidade e envolto, como todos nós, na tragédia da vida e da morte. Musto nos faz lembrar que antes ou, acima de tudo, Marx foi um homem.

 

1. Este texto ganharia uma edição russa, editada por Sofya Yanovskaya e publicada em 1968, e teria também uma tradução em inglês de 1983 e, mais recentemente, em 2005, uma edição em italiano.

2. Para um exame pormenorizado dos limites das críticas de Said a Marx, ver Ahmad (2008, p. 221-242).

3. Como demonstrado por Anderson (2010).

4. Para um exame da virada de Marx e da superação da Filosofia da História de Hegel, ver Dussel (1990).

Referências Bibliográficas

AHMAD, Aijaz. In theory: classes, nations, literatures. London: Verso, 2008.
ANDERSON, Kevin. Marx at the Margins: on nationalism, ethnicity, and non-western societies. Chicago: The University of Chicago Press, 2010.
DUSSEL, Enrique. El último Marx (1863-1882) y la liberación latinoamericana. México, DF: Siglo XXI, 1990.
LÖWY, Michael. [Orelha]. In: MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883). São Paulo: Boitempo, 2018.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2014
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. El manifiesto comunista. Madrid: Nórdica Libros, 2012.
MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883). São Paulo: Boitempo, 2018.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.